O Viajante

Eu sempre viajei o mundo inteiro. Conheci países, cidades, vilarejos, pessoas, costumes e culturas diferentes durante esses anos nessa vida nômade. E não me arrependo. Mas de vez em quando acontece algo que me coloca em perigo. E claro, que o medo de morrer em certas ocasiões, é inevitável. Se estou contando isso, é porque sobrevivi, obviamente. Enfim, não vamos prolongar mais detalhes irrelevantes. Tudo começou no ano de 1953. Eu estava viajando pelas regiões inóspitas do leste da Ucrânia, ainda devastada devida a Segunda Guerra Mundial, mas como vivi pelo mundo, aprendi a passar despercebido pelas densas florestas daquelas bandas. Poucos dias depois de uma curta viagem por estas mesmas florestas, debandei em um riacho. Tive dificuldade para atravessá-lo, mas consegui pegando carona na córcova de um cavalo que resolvera atravessar tal riacho, e depois de uma longa caminhada, vi de longe, entre um vale profundo, um vilarejo de poucas moradias, feitas todas de madeira. Seus habitantes, aparentemente camponeses simples, faziam seus ofícios diários. Me aproximei, e caminhando pelo longo corredor de moradias, percebi logo que não era muito bem-vindo.

Todos me observavam de canto, com aquele conhecido olhar que pode ser traduzidos como "olha, um forasteiro em nosso lar". Me limitei a cumprimentá-los timidamente e continuei até chegar a uma taverna bem rústica, onde imediatamente o músico parou de tocar, e um silêncio sepulcral tomou conta do lugar. Pedi um gole de água, e com um visível mal-humor, o dono do local me deu uma cuia de água suja, a qual virei sem pestanejar, pois a sede me acometia. Agradeci e paguei com um punhados de moedas antigas de ouro, o que causou espanto, mas as quais serviram como pagamento. Procurei um local para me hospedar, e uma família muito simpática se ofereceu para me abrigar durante o frio inverno da região, desde que eu ajudasse com os afazeres da comunidade. Claro que, apesar de aparentar ser um homem fraco por ter o corpo muito esguio, eu podia arcar com serviços pesados. No dia seguinte, acordei com uma garota me chamando, dizendo para eu fugir, pois iriam me assassinar. Claro que achei isto uma loucura, afinal aquela família me tratou muito bem, mas fiquei desconfiado de quê algo sinistro pairava sobre aquele lugar perdido no meio do nada. Depois de um árduo dia de trabalho, fui me deitar, quando no meio da madrugada, senti uma mão fria como o toque da morte subir por meu corpo, e só quando meus olhos se adaptaram a aquela escuridão, pude ver que era aquela mesma garota do dia anterior, a qual descobri ser filha do anfitrião da casa a qual estava hospedado. Perguntei o que fazia ali, e ela me respondeu:

—Vim lhe fazer compania. Magro deste jeito, somente calor humano para te esquentar neste inverno.

Fiquei petrificado por um instante. Meus relacionamentos nunca foram uma boa experiência. Creio que sofro de uma maldição, pois todas adoeciam da mesma maneira, definhando por dias e vindo a falecer. Mas enquanto pensava nisto, vi aquela garota deixar cair o fino lençol que a cobria, nem parecendo se importar com o frio. Senti um desejo ardente subir pelo corpo vendo aquela perfeição nua em minha frente. Por um momento pensei em mandá-la embora, mas ao me tocar, não consegui falar mais nada. O perfume natural que emanava de seu corpo era embriagante demais para meus instintos não cederem. Acabei tendo a melhor noite de paixão ardente em minha longa vida. Nunca havia conhecido uma garota tão enebriante e prazerosa como aquela, e me deixei levar pelo momento. No dia seguinte, o pai da garota me acordou, e pensei comigo "céus, estou morto, literalmente estou morto", e antes que eu me perdesse em palavras de desculpas, o velho me disse solenemente:

—Vi que gostou de minha filha Eva. Fico feliz com isso. Você parece ser um bom rapaz!

Sorri levemente, e disse que nunca havia conhecido alguém no qual meu velho coração tivesse vontade de bater. Ele saiu sorrindo, e me virei para o lado, não acreditando na estranha ligação que eu sentia por aquela estranha. Ao acordar, ela me pediu para fechar a cortina, pois seus olhos eram sensíveis a luz. Eu sabia que era por causa de sua idade, afinal, era alguns anos mais nova e consequentemente, mais delicada. Algo nela me parecia estranho. Era anormalmente pálida, e quando não estava sob meu corpo, tinha a pele fria como pedra de gelo. Fiquei particularmente interessado, pois era diferente...e excitante para mim. De noite, o velho veio me pedir um favor inesperado: que eu levasse sua filha junto comigo, pois ela corria perigo, e me confirmou que realmente queriam me matar. Com isto, aceitei e planejei a fuga para a madrugada. Um pouco antes da madrugada, alguém bateu fortemente na porta, foi quando descobrimos olhando pelos vãos da madeira, que havia um grupo de camponeses com tochas e forquilhas na mão, e sabíamos que era hora de partir.

Mas invadiram a casa, e capturaram Eva, e com medo de perdê-la, deixei-me capturar pelos camponeses, os quais nos surraram, e prepararam uma enorme fogueira para nos queimar...vivos. Ao ver que Eva seria a primeira, fiquei desesperado, e uma fúria incontrolável tomou conta de mim. Parecia que meu corpo ganhara força descomunal ao sentir que uma injustiça sem julgamento e sem motivo iria acontecer. Consegui me libertar de meus algozes, e ferozmente, joguei todos para trás, e corri até Eva para salvá-la. Ela parecia me entender, e juntos tentamos dar o troco, já que não havia escapatória. Sem armas, um instinto primordial e selvagem tomou conta de nós, e com as unhas e dentes, matamos a todos, arrancando suas vísceras e destroçando seus pescoços. Era o fim daquele pesadelo, se não fosse um camponês escondido com uma lança, empalar Eva bem defronte a mim. Não pude me conter. Uma fúria demoníaca tomou conta de meu ser, e como uma besta selvagem, o destrocei sem piedade, quebrando sua coluna e bebendo o seu sangue.

A maldição se concretizava novamente. Sem amigos, sem família. Sem ninguém. Não compreendo o porquê de todos me odiarem e terem repulsa de mim, mas nesses meus 6 mil anos de existência, eu já deveria ter entendido que nenhuma sociedade aceitaria um vampiro vivendo entre eles. Muito menos dois.

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